O relógio marcava 0h30 desta segunda-feira quando a maior carreta da história da Via Dutra despontou num retorno para dar início à descida da Serra das Araras, no Sul Fluminense, com uma das maiores cargas já transportadas no Brasil. O conjunto transportador de 135 metros de extensão, com um transformador de 511 toneladas a bordo, seguiu de Piraí, no km 239, onde estava estacionado há duas semanas, até Paracambi, no km 221, onde, às 5h30, fez nova parada e ficará até continuar para o próximo destino, o Porto de Itaguaí, na Região Metropolitana do Rio.

A viagem demorada num trecho relativamente curto tem uma razão: por questões de segurança, o comboio — que junto com o equipamento conduzido soma 840 toneladas — se movimenta numa velocidade média de apenas 15 quilômetros por hora. A cargo da transportadora IRGA, o deslocamento foi acompanhado pela concessionária CCR RioSP, responsável pela Dutra, e pela Polícia Rodoviária Federal (PRF).

— O trajeto foi bem complicado. Já esperávamos por isso, mas todos os lugares que a gente estudou para passar com a carreta saíram como o planejado. No final, deu tudo certo — disse Ângelo Antônio Botter, diretor de operações da transportadora IRGA, já em Paracambi, após a descida da Serra. — Devemos partir daqui para Itaguaí às 10h.

A equipe do GLOBO acompanhou a operação. Chegou ao km 239 por volta das 18h30 de domingo. Já era noite, e a escuridão dominava o trecho, iluminado apenas pelos faróis dos veículos que passavam pela via. No acostamento direito, sentido Rio, lá estava a gigante sobre rodas, com a carga presa ao caminhão por correntes robustas. Os operadores do comboio ainda não estavam a postos.

De prontidão no local, estava apenas o guarda Edvaldo Macedo da Silva, de 58 anos, que garante a segurança da carga desde quando o veículo chegou a Piraí, no último dia 2. Ele veio de São Paulo para render um colega e seguirá com o comboio até o Porto de Itaguaí.

— Eu faço a segurança da carga parada. Quando o caminhão encontra um ponto de parada, a equipe vai descansar, e eu entro em ação, a fim de fazer a guarda 24 horas da carga, para ninguém mexer nem haver furto de nenhum item do equipamento, nem da carreta — explica Edvaldo, que reveza o trabalho com um colega. — Já acompanhei o transporte de outras cargas, mas nunca desse porte.

Por volta das 20h30, chegaram os primeiros integrantes da equipe, como Ângelo Antônio Botter. Para ele, as curvas representam um dos maiores desafios da operação.

— Dependendo do ângulo da curva e da inclinação da pista, você tem que parar a carreta, porque não pode descer com ela inclinada. Tem que fazer uma compensação. Para isso, o comboio é capaz de erguer só o lado direito ou só o lado esquerdo, para equilibrar. Então, por exemplo, se a pista tem um caimento de seis graus, você compensa em seis graus. O transformador tem que estar sempre nivelado — esclareceu.

Feito na contramão da pista de subida, sentido São Paulo, o deslocamento até Paracambi exigiu fechamento total da via entre as 23h de domingo e as 5h30 desta segunda-feira. Ônibus de turismo em direção a São Paulo foram desviados para a BR 393.

A preparação para a descida começou às 6h de ontem, 17 horas antes de os motores da carreta gigante serem ligados. Os preparativos incluíram a retirada de mais de 172 blocos de concreto utilizados no cercamento de uma área de tráfego exclusiva para as obras de expansão da via na Serra das Araras. O objetivo da remoção foi deixar a pista mais livre para a passagem da carga.

Para movimentar carga, três caminhões foram na frente, puxando, e dois atrás, fazendo a contenção.

— Ao longo do domingo, fizemos uma revisão geral. Trocamos algumas lâmpadas que estavam queimadas. Fizemos o reaperto dos parafusos de roda. Verificamos vazamentos, só tinha um, que foi sanado — disse Ângelo.

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) fez a escolta da operação com quatro agentes e duas viaturas, uma parada no bloqueio da pista e outra que acompanhou a carreta. Além da segurança, um dos papéis da corporação nessa força-tarefa é fazer o controle de trânsito.

— As viaturas da Polícia Rodoviária Federal vão no final do comboio, fazendo o controle para que veículos não envolvidos na operação não tentem ultrapassar a carga. Se algum veículo tentar ultrapassar, pode acontecer um acidente. A carga ocupa as duas faixas, mas alguns veículos poderiam tentar a ultrapassagem pelo acostamento ou por uma possível brecha à esquerda. E, como a carga pode se movimentar de forma repentina, ora para a esquerda, ora para a direita, isso poderia ocasionar algum acidente. Então, a PRF trabalha para garantir a segurança das equipes, da carga e dos motoristas — detalhou Carlos André Nogueira, supervisor operacional da 7ª Delegacia da PRF (Resende).

A PF também faz o contato com as equipes para combinar onde as paradas.

— Quando um há trecho muito longo, definimos um recuo em que a carga caiba com segurança, para que desafogue o trânsito e, depois, volte a circular — disse Nogueira.

O transformador saiu de Guarulhos, em São Paulo, estado em que fica a sede da fabricante, a Hitachi Energy, no dia 24 de julho, e tem como destino final a Arábia Saudita, onde será utilizado em uma subestação de energia. Antes de partir para o país do Oriente Médio, porém, a carga enfrenta os desafiadores 380 quilômetros entre Guarulhos e o Porto de Itaguaí, ao qual deve chegar até o fim do mês. A viagem durou cerca de um mês até o município fluminense de Piraí, onde a carreta precisou permanecer estacionada até que as condições climáticas e técnicas estivessem favoráveis para a continuidade da operação.

Time de motoristas

Seis motoristas, sendo um reserva, todos com autorização especial do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), fizeram parte da força-tarefa para conduzir o conjunto transportador, de 135 metros de comprimento, seis metros de largura, 59 eixos e 398 pneus.

O comboio, de aproximadamente 2.900 cavalos, conta com uma viga articulada, uma junção flexível que transforma seus 44 módulos em um grande conjunto. A ampla estrutura faz jus à dimensão da carga, que, além de mais de 500 toneladas, ostenta 24 metros de comprimento, 12 de altura e 9,5 de largura.

Um dos profissionais na missão de conduzir a carreta é Severino Manuel Custódio, de 45 anos. Natural de Maceió, o motorista se dedica ao ofício há cerca de 10 anos. Longe de sua cidade natal há mais de um mês, diz que sente falta dos cinco filhos, entre 15 e 28 anos, da mãe e da comida nordestina.

— O coração fica apertado por causa da distância. E essa rotina na estrada deixa meus filhos preocupados — contou. — O Nordeste é maravilhoso. O cuscuz e a mandioca de lá não têm comparação. Estou com saudade.

A carga especial é um transformador HVDC, utilizado em sistemas de transmissão em corrente contínua de alta tensão. Projetado para operar em conjunto com estações conversoras que realizam a conversão entre AC e DC, ele é responsável por adequar as tensões para os conversores, ajudando a condicionar a energia elétrica para longas distâncias. A operação realizada desde julho se repetirá outras vezes, já que mais 13 equipamentos semelhantes serão enviados à Arábia Saudita. Os 14 transformadores combinados são capazes de abastecer uma cidade do tamanho da capital fluminense.

Fonte: Extra

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