Berço da indústria do petróleo no Brasil, o Rio de Janeiro tem condições de também exercer um papel central na transição energética do país, no momento em que o mundo precisa reduzir emissões de gases do efeito estufa. Além do compromisso com o futuro, essa mudança abre alternativas econômicas para o estado.
Foi o que concluíram especialistas e executivos ligados ao setor que participaram ontem do debate “Transição energética: como o Rio enfrenta o desafio de reduzir os combustíveis fósseis”, promovido pelo jornal O Globo na série Diálogos RJ.
O secretário estadual de Energia e Economia do Mar, Cássio Coelho, afirmou que o Estado do Rio estuda ampliar incentivos às inovações energéticas que possam gerar mais investimentos e empregos, mesmo com o petróleo seguindo importante.
— Hoje vejo o Rio avançando como capital da diversidade energética — resumiu o secretário no debate, que foi mediado pela repórter especial do Globo Ana Lucia Azevedo.
Danielle Johann, diretora-executiva da Associação Brasileira de Energia Solar Térmica (Abrasol), chamou a atenção para a energia solar térmica. Apesar de os painéis fotovoltaicos para gerar eletricidade já terem se popularizado em residências e empresas, a energia solar para aquecimento ainda é quase inexplorada no Rio.
E o potencial é enorme: em todo o país, 7% do consumo de energia entre 17h e 20h servem para aquecer água em chuveiros elétricos, ela destacou. O aquecimento solar poderia dar ao consumidor uma economia de 40% a 50% na conta de luz, de acordo com cálculos da Abrasol.
A expansão da geração solar térmica, porém, depende de políticas públicas de estímulo, disse a executiva, para que coletores térmicos dividam espaço com os fotovoltaicos em projetos residenciais e também industriais. Ela citou incentivos já existentes em Minas Gerais e São Paulo, assim como no programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal. Há conversas com o governo do Rio, ela contou:
— Na indústria, por exemplo, 80% do consumo de energia é para aquecimento. E, desse total, 35% é para alcançar até 100° C, o que a energia solar térmica pode entregar de forma mais eficiente. É fácil de instalar e com vida útil de mais de 30 anos. No Rio, temos uma insolação que é absolutamente das melhores do Brasil.
Aerogeradores no mar
No médio prazo, outra alternativa para o Rio é a geração eólica em alto-mar. Rafael Palhares Simoncelli, diretor de Desenvolvimento de Negócios Brasil e América do Sul na Ocean Winds — empresa dedicada à energia eólica offshore — destacou que a modalidade é uma das grandes “alavancas” da transição energética no mundo atualmente.
No entanto, ele admitiu que, diante do processo de regulamentação do setor ainda em curso no governo federal — passo seguinte à aprovação do marco legal no Congresso, no ano passado — e o enorme potencial que o Brasil ainda tem para os aerogeradores em terra, mais baratos, a viabilidade comercial da geração no mar só deve ser alcançada no início da próxima década.
Enquanto isso, a companhia desenvolve projetos pilotos que somam 15 GW no Brasil, sendo 5 GW no Rio, em meio às iniciativas de outras empresas.
— O Rio tem alguns predicados: academia pujante, muitas empresas do setor e bons ventos, mas o principal é a infraestrutura de óleo e gás, que pode ser muito facilmente aproveitada por parques eólicos offshore — afirmou.
Para o Brasil alcançar sua meta de zerar emissões de carbono até 2050 é preciso investir também em captura de dióxido de carbono (CO₂), apontou no evento Maurício Tolmasquim, conselheiro da Eletrobras.
Ele explicou que o Rio já tem experiência nisso na extração de petróleo pela Petrobras e reúne condições geográficas ideais para captar CO₂ de indústrias para comprimi-lo e injetá-lo em aquíferos salinos ao longo da costa, o que possibilitaria a captura de até 20 milhões de toneladas de CO₂ por ano.
Não é só uma solução ambiental, mas um negócio já em prática na Noruega, contou o diretor de Operações Compartilhadas da petroleira Equinor, Paulo Van der Ven.
Tolmasquim disse que, hoje, 75% das emissões de gases do efeito estufa no mundo vêm da geração de energia. No Brasil, no entanto, essa proporção é de apenas 18%, enquanto 24% vêm da agropecuária e 50%, do desmatamento, lembrou Luciana Costa, diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática do BNDES:
— A tecnologia mais barata para capturar carbono é a árvore. O Brasil tem 100 milhões de hectares degradados. Precisamos zerar o desmatamento ilegal e avançar em restauração. Sem isso, podemos fazer o que quisermos no setor energético, na indústria, no transporte, e não bastará (para ser neutro em carbono).
