Em entrevista, o professor Victor Hugo Abreu, especialista em planejamento de transporte urbano e docente da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), alerta que a medida pode trazer desafios, sobretudo para pessoas em situação de vulnerabilidade social, idosos, turistas e passageiros com pouco acesso a meios digitais ou a cartões eletrônicos. Para ele, embora a modernização do sistema de bilhetagem represente um avanço operacional, é fundamental garantir alternativas acessíveis para que nenhum usuário seja impedido de utilizar o transporte público.
“Parte da população ainda utiliza o dinheiro físico como principal meio de pagamento no cotidiano, especialmente trabalhadores informais, desempregados e pessoas que não possuem conta bancária ou smartphone”, observa o especialista.
Segundo o professor Victor Hugo, a digitalização também pode trazer ganhos operacionais importantes, como a redução do tempo de parada nos pontos e maior controle da bilhetagem. O especialista lembra ainda que outras cidades brasileiras já adotaram medidas semelhantes nos últimos anos, assim como o próprio Rio de Janeiro, nos sistemas do BRT e do VLT, que funcionam predominantemente com pagamento eletrônico.
“Em alguns sistemas de transporte público, o pagamento em dinheiro já foi restringido, como em Curitiba, Belo Horizonte e Porto Alegre, enquanto em Florianópolis houve a eliminação gradual dessa modalidade em determinadas operações. Essa tendência acompanha um movimento nacional e internacional de modernização da mobilidade urbana, com o objetivo de aumentar a rastreabilidade financeira, reduzir fraudes, elevar a segurança operacional e diminuir o tempo de embarque dos passageiros”, avalia.
Salvi entende que a medida pode ser polêmica em alguns aspectos, pois o acesso ao transporte público é um direito de todos, e o pagamento com dinheiro em espécie no Brasil é garantido por lei. Por outro lado, ele esclarece que existe a possiblidade de uso do dinheiro em espécie para recarga do bilhete eletrônico, que seria um argumento para cumprir este direito.
Segundo o professor da UFRJ e pesquisador do Observatório das Metrópoles, Juciano Rodrigues, o pagamento em dinheiro corresponde a um percentual irrisório dos mais de 3 milhões de passageiros transportados diariamente pelo sistema de ônibus da cidade do Rio. Para ele, há fatores muito mais relevantes na exclusão de pessoas do sistema de mobilidade, sendo o principal deles o alto valor da tarifa.
“As tarifas praticadas em todos os modos é que são incompatíveis com o direito à mobilidade urbana. Na verdade, para o conjunto da população de baixa renda, o valor reservado para viagens diárias para o trabalho está no limite do que o orçamento familiar pode suportar. Nesse sentido, a impossibilidade de gastos com viagens por outros motivos é que constitui uma barreira real para acessar oportunidades, sendo incompatível com o acesso a direitos consagrados na sociedade brasileira, como educação, saúde, lazer, cultura, etc”, diz.
Juciano Rodrigues também avalia que a modernização do pagamento nos coletivos não representa um risco significativo para idosos, turistas e a população de baixa renda. “Os idosos não pagam em dinheiro porque já precisam do Jaé Gratuidade para embarcar nos ônibus. E as gratuidades já correspondem, em média, a 30% do embarque. Neste percentual estão incluídos idosos, estudantes e outras gratuidades por lei. No caso dos turistas, estes já estão acostumados a usar outros meios de pagamento em suas cidades de origem, sem falar que a tendência é que utilizem cada vez mais táxis e carros de aplicativo”, diz.
O especialista lembra que o metrô e o VLT não aceitam dinheiro e são amplamente utilizados por esse público, já que atendem as principais áreas turísticas da cidade.
O pesquisador do Observatório das Metrópoles acrescenta ainda que o pagamento em dinheiro também é incompatível com a segurança dos passageiros, na medida em que a dupla função dos motoristas de ônibus, ao exigir atenção simultânea à cobrança da tarifa e à condução do veículo, gera riscos evidentes durante as viagens.
