Às 13h de terça-feira, um termômetro registrava 35 graus no interior de um ônibus sem ar-condicionado, na Zona Norte do Rio. Do lado de fora, o asfalto era abrasador. A medição, feita por uma equipe do EXTRA, expõe mais um dia de calorão no Rio, agravado por falta de luz e transporte público sem climatização. A cidade registrou ontem o terceiro dia com a máxima temperatura entre todas as capitais brasileiras, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia.
A onda de calor que tomou a capital carioca começou no sábado. Desde então, quem está na cidade vem percebendo que nem mesmo durante a noite e a madrugada — períodos que costumam ser mais frescos — o maçarico tem dado uma folga.
— A gente vai ter um verão acima da média normal. A estação deve se apresentar quente e ainda com muito risco para temporais — informa o meteorologista.
Apagões em oito bairros
Segundo o Centro de Operações e Resiliência (COR) da Prefeitura do Rio, a capital ainda continua no terceiro nível do Protocolo de Calor (Calor 3), que se caracteriza por temperaturas entre 36 e 40 graus por pelo menos três dias consecutivos. Ele está acionado desde as 11h30 de sábado.
Para piorar, moradores da Zona Norte relataram apagões durante a noite de anteontem, justamente no dia mais quente do ano até agora. A queda de energia ocorreu por volta das 21h e atingiu oito bairros: Méier, Cachambi, Todos os Santos, Maria da Graça, Del Castilho, Engenho de Dentro, Jacarezinho e Benfica.
— Passamos a noite toda nos abanando com leques. Nem os cachorros conseguiam dormir — contou Maria Clara Silva, de 27 anos, estudante de farmácia e moradora do Méier.
Segundo ela, a energia começou a oscilar ainda durante o jantar:
— Por volta de 20h30, 21h, a luz foi embora no Cachambi. Pelo que vi nas redes sociais, tinha lugar sem luz desde 19h. Voltou pela primeira vez 2h, ficou 20 minutos, e só voltou de vez por volta das 4h.
No meio da onda de calor, a cena foi de improviso coletivo:
— Isso no dia mais quente do ano. As crianças da vila ficaram todas lá fora, idosos sentados na porta de casa. A gente pegou uma mangueira e ficou se molhando com roupa mesmo — disse Maria.
A falta de energia já vinha sendo registrada em Copacabana e Leme, na Zona Sul, e na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste. Em alguns trechos, geradores fornecidos pela Light estão sendo usados.
A Light informou ontem que o abastecimento estava regular em toda sua área de concessão, em alguns pontos com o uso de geradores.
Sobre a Zona Norte, a concessionária afirma que “a interrupção ocorreu durante obras de modernização da rede subterrânea de alta tensão da Subestação Cachambi, e o restabelecimento ocorreu no começo da manhã (de ontem)”. Mesmo com o suporte de geradores, acrescenta, “o serviço levou mais tempo que o previsto e acabou impactando parte da região”. As obras estão previstas para serem concluídas até o fim de maio. Enquanto estiverem acontecendo, a subestação seguirá com o suporte de geradores.
Na Barra, diz a Light, o apagão é decorrente do furto de cabos. Conforme a empresa, geradores estão garantindo a energia, enquanto os equipamentos são substituídos.
Ainda de acordo com a concessionária, “em ondas de calor o consumo de energia aumenta, em média, 25% em áreas regulares e varia entre 80% e 100% em regiões onde há ligações clandestinas, o provoca sobrecarga”.
Saúde: mais atendimentos
Enquanto isso, nas ruas, o calor segue se impondo. Às 11h de ontem, com os termômetros marcando 33 graus, a fila já dobrava a esquina da Rua Vinte e Quatro de Maio, no Méier. Sem marquise, sombra e ventilação, mais de 60 pessoas aguardavam do lado de fora de um restaurante popular. Leques improvisados, sombrinhas divididas entre desconhecidos e toalhas no pescoço ajudavam a suportar o sol.
